Atualizando...

Tradutor de páginas
Oscar Niemeyer


Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares (Rio de Janeiro, 15 de dezembro de 1907) é um arquiteto brasileiro, considerado um dos nomes mais influentes na Arquitetura Moderna internacional. Foi pioneiro na exploração das possibilidades construtivas e plásticas do concreto armado.

Seus trabalhos mais conhecidos são os edifícios públicos que desenhou para a cidade de Brasília.

Filho de Oscar de Niemeyer Soares e Delfina Ribeiro de Almeida, Oscar Niemeyer nasceu no bairro de Laranjeiras, na rua Passos Manuel, que receberia no futuro o nome de seu avô Ribeiro de Almeida, ministro do Supremo Tribunal Federal. Niemeyer foi profundamente marcado pela lisura na vida pública do avô, que como herança os deixou apenas a casa em que morava e cuja regalia era uma missa em casa aos domingos.

Niemeyer passa a sua juventude sem preocupações e na boêmia, frequentando o Café Lamas, o clube do Fluminense e a Lapa. Em suas palavras: "parecia que estávamos na vida para nos divertir, que era um passeio."

Em 1928, aos 21 anos, casou-se com Anita Baldo, 18 anos, filha de imigrantes italianos da província de Pádua. A cerimônia de casamento na igreja do bairro atendeu aos desejos da noiva. "Casei por formalidade. Mais católica do que minha esposa é impossível, então não me incomodei em casar dessa forma". O casamento foi no mesmo ano da formatura no ensino médio. O casal teve somente uma filha, Anna Maria Niemeyer, falecida em junho de 2012, que deu cinco netos, treze bisnetos e quatro trinetos ao arquiteto.

Casado, Oscar troca a vida boêmia pelo trabalho na tipografia do pai. Resolve retomar os estudos. Em 1929, ingressa na Escola Nacional de Belas Artes, de onde saiu formado como arquiteto e engenheiro, em 1934.

Desde sempre idealista, mesmo passando por dificuldades financeiras, decide trabalhar sem remuneração no escritório de Lúcio Costa e Carlos Leão. Não lhe agradava a arquitetura comercial vigente e viu no escritório de Lúcio Costa uma oportunidade para aprender e praticar uma nova arquitetura.

O casamento com Annita Baldo, a primeira mulher, durou 76 anos, quando ela morreu, em 4 de outubro de 2004. Casou-se novamente em 2006, com sua secretária, Vera Lúcia Cabreira, de 60 anos à época.


Estilo de Niemeyer marcou rupturas e dialogou com o movimento modernista.

Muito se fala da representatividade das obras de Oscar Niemeyer para Brasília. O fato de a capital federal ser considerada patrimônio histórico e cultural pela Unesco está intimamente ligado ao brilhantismo do arquiteto. Os belos monumentos que embelezam a cidade são mostras da inspiração modernista de Niemeyer, que antes de participar do projeto do Distrito Federal, já havia idealizado outras obras no Brasil. O estilo moderno do arquiteto dialoga muito com o próprio movimento vivido no Brasil na década de 1920, tendo a Semana da Arte Moderna de 1922 como principal difusor. As mudanças ocorridas na arte e na literatura também foram aplicadas no urbanismo, com o abandono de tradições para o surgimento de uma nova estética.

A construção do Ministério da Educação e Saúde em 1936, no Rio de Janeiro, foi um marco. A primeira grande obra modernista brasileira teve a presença de grandes arquitetos e simbolizou a ruptura com as formas arquitetônicas ornamentadas com motivos históricos e simbólicos usados na época. A partir dali, com o desenvolver da industrialização no país, os arquitetos procuravam afirmar identidade cultural por meio de inovação, estilo e funcionalismo. O governo do então presidente Getúlio Vargas buscava se impor no cenário econômico internacional. Um ano depois, Niemeyer projetou a sede da Obra do Berço, no Rio. A instituição de caridade, sem fins lucrativos, é reconhecida nacionalmente e atende hoje quase 100 crianças carentes.

O estilo mais despreocupado com a arquitetura permitiu a Niemeyer traçar linhas mais livres e despojadas. O gosto pelas curvas destacou a originalidade de dezenas de obras. Ele foi o grande responsável por planejar o conjunto arquitetônico da Pampulha, construído em 1940. A pedido de Juscelino Kubitschek, prefeito de Belo Horizonte à época, criou a Casa do Baile, o Iate Tênis Clube, a Igreja São Francisco de Assis e o Cassino da Pampulha, que hoje é um museu de arte. Com o resultado da Pampulha, Niemeyer atingiu grande notoriedade, ao alcançar maior status e reconhecimento mundial.

Com uma contribuição sem precedentes para o urbanismo brasileiro, Niemeyer certamente deixou sua marca no país com diversos feitos que fazem parte da vida de milhões de brasileiros. Apesar de ser ateu, Oscar Niemeyer idealizou igrejas, capelas e catedrais. Para ele, o prazer que sentia em ver uma obra religiosa bem realizada era muito menor do que a importância que dão aqueles que a frequentam. O gênio centenário que participou de importantes fases do país já se encontra nas páginas da história brasileira e vai continuar a ser um grande influenciador da arquitetura.


Trabalhos de Niemeyer influenciaram arquitetura no Brasil e no mundo.

Amados por uns e odiados por outros, o que não se pode negar é que os trabalhos de Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares influenciaram, e influenciam ainda, a arquitetura. O carioca que ajudou a construir Brasília marca forte presença na arquitetura brasileira e mundial.

Segundo o arquiteto que trabalha em Brasília Leonardo Freitas, Niemeyer usou a estrutura de concreto armado para fugir do que era padrão: “Ele foi pioneiro na questão da forma livre”. O concreto armado recebe armadura metálica que é capaz de resistir aos esforços de tração. Com ele, é possível criar diferentes formas para as construções.

Freitas diz que o artista inovou também ao transgredir o princípio funcionalista, que prega que as opções de arquitetura devem obedecer às funções do prédio. Para Niemeyer, a beleza é a função, e por isso, o principal da obra.

O paulistano Ruy Ohthake é um dos discípulos de Niemeyer. Ele assina o prédio que é um dos símbolos de contemporaneidade da capital, o Brasília Shopping, e levou a marca do carioca para além de Brasília. Ohthake usa as curvas e a plasticidade em prédios de outras cidades brasileiras e na Embaixada do Brasil em Tóquio, entre outros. O arquiteto diz procurar o "belo por meio da surpresa" e não ter medo de ousar. Não é por acaso que o próprio Niemeyer o considerava o mais legítimo representante da arquitetura brasileira.

A iraniana Zaha Hadid é outra que assume ter sido influenciada pelo arquiteto que projetou a maioria dos monumentos da capital federal. Assim como Niemeyer, ela gosta de explorar formas curvas. Hadid descreve Brasília como um trabalho muito abstrato e, para ela, Niemeyer é uma mutação do modernismo que deu um passo importante para o Brasil. Ele é o precursor de uma geração de arquitetos.

Remment Lucas Koolhaas, mais conhecido como Rem Koolhaas, apesar de ser holandês, aos 12 anos de idade tinha o sonho de ser um "arquiteto brasileiro", por influência de Niemeyer. Rem, que veio para o Brasil ainda criança, aprendeu com Niemeyer o gosto pela inovação. Em 2008, Rem foi considerado pela revista Time umas das 100 pessoas mais influentes do mundo.


O arquiteto que driblou a ditadura.

"A indignidade atinge limites inimagináveis quando o coronel Manso Neto arranja um croqui com o qual pretende provar que copio Le Corbusier. O plano prossegue e, na prefeitura, cópias são distribuídas aos ministros e pessoas importantes (...) Só tomei conhecimento dessa indignidade muito tempo depois e, como não consegui cópia, nada foi possível fazer" Oscar Niemeyer, em Curvas do Tempo

O artista das formas ousadas e dos monumentos repletos de curvas nunca escondeu suas posições políticas. Oscar Niemeyer dedicou a vida a duas de suas grandes paixões: a arquitetura e o comunismo. De suas mãos, saíram os traçados de projetos inovadores, como os prédios monumentais de Brasília, mas também manifestos em defesa da democracia, cartas a amigos do antigo partidão e inúmeros artigos em que ele não hesitava declarar: “Eu sou mesmo um comunista”. A sua ideologia sem disfarces era um incômodo e um motivo de constrangimento para os militares durante a ditadura. Mas o enorme prestígio internacional de Niemeyer livrou-o de prisões e de interrogatórios mais duros.

Documentos sigilosos do governo militar guardados no Arquivo Nacional comprovam que todas as atividades do arquiteto eram monitoradas e que as declarações, os projetos e as entrevistas de Oscar causavam enorme desconforto entre os integrantes da alta cúpula. O Correio teve acesso a arquivos liberados graças à Lei de Acesso à Informação que revelam a visão dos militares a respeito do arquiteto: Niemeyer era considerado um inimigo, com contato próximo aos “escalões avançados da subversão estudantil” e dono de um perigoso discurso antiamericanista. Além das posições políticas, nem mesmo o trabalho de Oscar escapou de questionamentos e acusações. Os documentos revelam uma grave acusação que teve repercussão entre os militares da época: um coronel se empenhou em divulgar o boato de que trabalhos de Niemeyer seriam um plágio dos projetos do arquiteto suíço Le Corbusier.

Um documento do Serviço Nacional de Informações (SNI) de 1973, cujo assunto era “Oscar Niemeyer”, esmiuça em quatro páginas os passos do arquiteto. O ofício detalha principalmente entrevistas, encontros e suas atividades. “O presente documento de informações trata dos aspectos ideológicos das atividades de Oscar Niemeyer, não tendo sido focalizados os casos de natureza técnico-administrativa ligados a Brasília, como o plágio de Le Corbusier”, diz o documento localizado pela reportagem no Arquivo Nacional.

Plágio de Le Corbusier

A acusação dos militares de que Niemeyer teria copiado trabalhos do colega suíço é apenas mencionada no ofício, que não traz detalhes sobre o caso. Mas, tempos depois foi apurado que o trecho é referência a uma notícia propalada à época pelo coronel Miguel Pereira Manso Neto, que foi assessor do governo Médici. Segundo amigos de Niemeyer, e de acordo com o próprio arquiteto, o militar reuniu croquis e fotos para tentar provar que Oscar plagiava Le Corbusier. Ele dizia que a Igrejinha da Asa Sul seria “uma cópia” de um templo projetado pelo suíço para a cidade indiana de Chandigarh.

Niemeyer se lembra do caso com palavras cheias de revolta. “A indignidade atinge limites inimagináveis quando o coronel Manso Neto arranja um croqui com o qual pretende provar que copio Le Corbusier. O plano prossegue e, na prefeitura, cópias são distribuídas aos ministros e pessoas importantes”, relembra Oscar Niemeyer em seu livro de memórias Curvas do tempo. “Só tomei conhecimento dessa indignidade muito tempo depois e, como não consegui cópia, nada foi possível fazer. A hostilidade orquestrada pelo coronel Manso Neto me revoltou. Vivíamos um clima sórdido demais.”

O arquiteto Carlos Magalhães, amigo, ex-genro e representante do escritório de Niemeyer em Brasília, diz que a acusação de plágio difundida por militares foi um dos episódios que mais o indispuseram com a ditadura. “O coronel Manso Neto virou inimigo pessoal porque atingiu a obra do Oscar, a coisa que ele mais prezava”, conta Magalhães. “O que existia era uma relação de mestre e aluno. Le Corbusier era uma inspiração. Mas é claro que não houve plágio, o Oscar é dono de um talento enorme, era inventivo, tinha uma cabeça muito pulsante”, comenta Magalhães.

Guerra fria

A relação do arquiteto com a ditadura oscilava entre um contato diplomático para a execução de obras de monumentos e prédios públicos até o conflito declarado, com artigos revoltados de Oscar Niemeyer contra posicionamentos do governo militar. O episódio mais conhecido de atritos entre ele e a ditadura foi a construção do Aeroporto de Brasília. O projeto de um terminal circular, desenhado pelo arquiteto, acabou recusado pelo governo. “A solução de um aeroporto deve ser extensível”, justificou à época o diretor de Engenharia da Aeronáutica, brigadeiro Henrique Castro Neves.

A recusa ao projeto abriu uma guerra entre os militares e Oscar Niemeyer em 1967. O arquiteto, com o apoio de um grupo de colegas, recorreu à Justiça por meio de uma ação popular, em que pedia o direito de executar seu projeto. “Um aeroporto extensível, já naquela época, era solução superada que deviam rejeitar. Circular era a solução correta. Recorri à Justiça. Apresentamos uma ação popular contra a Aeronáutica, mas perdemos. O juiz se deu ao ridículo — que calhorda — de nos condenar a pagar as custas do processo”, relembra Niemeyer, em seu livro de memórias.

Um ministro militar declarou à época que lugar de arquiteto comunista era em Moscou, frase que irritou Niemeyer. Depois do episódio do aeroporto, ele passou a ser perseguido de forma mais ostensiva. “Vivíamos os tempos de Médici, governo fascista. Meus trabalhos começaram então a ser recusados e eu, ameaçado de demissão.”

As rusgas entre Niemeyer e a Aeronáutica persistiram nos anos seguintes. No Arquivo Nacional, existe um ofício confidencial datado de setembro de 1969, que determinava a abertura de inquérito policial militar “para apurar, com profundidade, as atividades subversivas praticadas pelo arquiteto Oscar Niemeyer”. As posições políticas do arquiteto “haviam sido relatadas na exposição apresentada pelo excelentíssimo senhor major brigadeiro-do-ar engenheiro Henrique de Castro Neves”. Justamente o militar que decidira vetar o aeroporto de Niemeyer dois anos antes.

A invasão da Universidade de Brasília pelos militares e a perseguição contra professores e estudantes também atingiram Oscar, que foi docente da instituição. “Já tinha comparecido à polícia política várias vezes. E a pressão continuou. A universidade foi invadida, nossos colegas exonerados e, dela, um dia, nos demitimos, cerca de 200 professores, em protesto contra tanta brutalidade”, recorda-se o arquiteto no livro Curvas do tempo.

Em 1969, os militares abriram inquérito policial para identificar “os responsáveis pelas agitações comuno-estudantis ocorridas na Universidade de Brasília em março de 1968”. O documento está no Arquivo Nacional. O nome de Niemeyer é citado várias vezes. O inquérito diz que ele era “um dos influenciadores de fora para dentro da UnB” e que Oscar e outros membros da Associação dos Arquitetos de Brasília “colaboraram, sobretudo, com a FAU (Faculdade de Arquitetura), que é órgão subversivo.”


"A vida é um sopro", dizia Niemeyer.

Dono de personalidade incisiva, Oscar Niemeyer acumulou histórias curiosas e inusitadas. Com o seu tom pessimista, dizia que as pessoas nunca mudariam, apenas o mundo, e revelava grandes segredos quando falava sobre os detalhes da carreira e as explicações de suas obras.

Carreira

Quando era menino, gostava de desenhar com o dedo. Dizia que esse gosto o levou para a arquitetura. O arquiteto norteava seu trabalho com a preocupação de ser diferente e sempre considerando a arquitetura como invenção. Primeiro projeto do arquiteto foi feito quando ele ainda estava na faculdade. Foi uma casa para um tio que era médico.

Uma das primeiras obras de Niemeyer, o bairro da Pampulha, em Belo Horizonte, foi projetado em uma noite, após um pedido de Juscelino Kubitschek. Ao surgir alguma ideia arquitetônica, Niemeyer desenhava a futura obra e redigia um texto para encontrar argumentos para o que iria projetar. Caso o texto não ficasse bom, repensava o projeto.

Depois de casado, foi trabalhar de graça para Lúcio Costa a fim de por em prática e aprender com o urbanista. Além de participar ativamente do Partido Comunista, Niemeyer era simpatizante do Movimento dos Sem Terra.

Brasília

No começo, achou Brasília longe demais, mas a determinação de Juscelino Kubitschek o fez prosseguir. Queria ter conversas e companhias mais variadas durante o período em que passaria na futura capital e levou vários amigos para Brasília, entre jornalistas, médicos e outros 15 que estavam desempregados na época.

Arquiteto explicava que projetou o teto do Congresso no nível das avenidas para possibilitar que quando as pessoas chegassem, vissem a Praça dos Três Poderes. Sobre as críticas de que o local não possuía sombra, justificava explicando que aquela é uma praça cívica, que precisa ter a arquitetura reassaltada. Tudo isso para fazer com o que o visitante sinta a importância da praça

Procurou dar unidade às suas obras. É o caso do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal, que têm o mesmo tipo de coluna. Queria uma Catedral diferente das antigas, que exprimisse concreto. Mesmo não sendo católico, se preocupou que quando as pessoas estivessem na nave vissem os espaços infinitos. Procurou a ligação da terra com o céu.

Na primeira vez que foi a Brasília de avião, sentou-se ao lado do Marechal Lott, que perguntou se o edifício reservado aos militares, o Quartel General do Exército, seria clássico, o arquiteto respondeu: “É. O senhor em uma guerra o que vai querer? Arma antiga ou moderna?”

Se decepcionou com o crescimento desordenado de Brasília. Para o arquiteto, a cidade precisava ter um cinturão verde em volta para impedir o crescimento desordenado.

Em 2009, idealizou a Praça da Soberania em frente à Rodoviária do Plano Piloto. No entanto, o projeto não foi adiante devido a pressão de arquitetos que eram contra a obra por ferir o plano de Lúcio Costa.

Medo de avião

Niemeyer dizia ter medo de andar de avião e só fazia isso quando se sentia realmente bem. Certa vez, em Brasília, foi obrigado a sobrevoar as construções juntamente com Juscelino Kubitschek. O presidente ameaçou prendê-lo caso não atendesse ao pedido.

O arquiteto só entrou no Palácio da Alvorada duas vezes. Uma em 1960 e outra em 2003, quando convidado pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na ocasião, fez uma viagem de dois dias, com paradas, do Rio de Janeiro até Brasília.

Em 2004, aos 96 anos, a fobia o impediu de ir até o Japão para receber o Prêmio Imperial, maior honra da área artística dos países asiáticos.

Sobre as críticas

Criticado por muitos sobre a falta de funcionalidade dos projetos, Oscar Nimeyer dizia: “ Se você ficar preocupado só com a função, fica uma merda”.

O arquiteto acreditava ser importante se preocupar com a beleza dos prédios. Sempre esteve ciente de que a população não poderia usufruir de suas obras, mas queria que ela pelo menos pudesse apreciá-las.

Como dizia o arquiteto : "A vida é um sopro"

“Estou longe de tudo,
de tudo o que eu gosto,
da terra tão linda
que me viu nascer.
Um dia eu me queimo,
meto o pé na estrada,
é aí no Brasil
que eu quero viver;
cada um no seu canto,
cada um sob um teto
a brincar com os amigos,
vendo o tempo correr.
Quero olhar as estrelas,
quero sentir a vida,
é aí no Brasil
que eu quero viver.
Estou puto da vida
(essa gripe não passa!)
de ouvir tanta besteira,
não me posso conter.
Um dia eu me queimo
e largo tudo isto,
isto aqui não me serve,
não me serve de nada,
a decisão está tomada,
ninguém vai me deter.
Que se dane o trabalho
e este mundo de merda,
é aí no Brasil
que eu quero viver!”
Poema escrito enquanto estava no exílio

No documentário A vida é um sopro (2007), o diretor Fabiano Maciel revela os momentos mais marcantes da sua vida do arquiteto. O próprio artista explica algumas curiosidades das obras projetadas.


Oscar Niemeyer fez história na arquitetura mundial.

O arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, foi um dos profissionais mais premiados e influentes do mundo. Seu trabalho, sempre cheio de curvas em concreto que tornavam seu estilo inconfundível, marcou a paisagem urbana do Brasil e de outros países. Apaixonado por futebol e pelo Fluminense, Niemeyer chegou a jogar no time juvenil do clube de Laranjeiras.

Os primeiros passos na carreira que o consagraria como um dos nomes mais influentes na arquitetura foi dado no escritório de Lúcio Costa e Carlos Leão, onde fez estágio sem remuneração. Niemeyer teve a oportunidade de conhecer outro gênio da arquitetura ao ser designado por Lúcio Costa para ajudar Le Corbusier, famoso arquiteto suíço, que estava de passagem pelo Brasil, em 1936, para colaborar com o projeto do prédio do Ministério da Educação no Rio.

Ativista político

Em 1940 Niemeyer conhece Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, e realiza seu primeiro grande projeto, o Conjunto da Pampulha, no bairro na capital mineira, que incluía o cassino, a Casa do Baile, o clube e a igreja de São Francisco de Assis.
Boa parte das obras mais importantes do arquiteto serviu a projetos ideológicos e políticos. Niemeyer projetou o parque Ibirapuera e o Edifício Copan, ambos em São Paulo. Em 1956, com JK na presidência do Brasil, organizou o plano piloto de Brasília e foi responsável pela construção da nova capital federal.

Com traços ousados, o filho do modernismo criou o Itamaraty, o Alvorada, o Congresso, a Catedral, a Praça dos Três Poderes, entre outros prédios e monumentos: “Nós começávamos a imaginar quando é que Brasília iria surgir. De repente, aparecia uma mancha azul no horizonte. Ela ia crescendo. Depois apareciam os contornos e começávamos a dizer: ali é o Teatro, lá é o Congresso, a Torre. Brasília surgia como num passe de mágica, um milagre”, contou ele.

A participação de Niemeyer na vida política do Brasil fez dele um intelectual comprometido com seu tempo. Comunista histórico - se filiou ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1945 -, o arquiteto teve seu escritório no Rio invadido no golpe de 1964. Depois de passar por interrogatório na polícia, decidiu morar fora do Brasil.

Conviveu com Jean-Paul Sartre em Paris, passou seis meses em Israel, elaborou o projeto da Universidade Constantine, na Argélia, na África, e nesse mesmo período, desenvolveu a sede da ONU em Nova York, nos Estados Unidos.

Niemeyer passou a ganhar projeção internacional e nos anos 70 abriu seu escritório na Champs Elysées, em Paris. O arquiteto também projetou a sede da editora Mondadori, em Milão, na Itália. Foi nesse período que ele influenciou a arquitetura mundial. As amizades iam do pintor Cândido Portinari ao maestro Villa-Lobos, passando por Fidel Castro e Chico Buarque.

Obras em curvas

Niemeyer sempre defendeu o uso do monumental na arquitetura, com certa obsessão pela leveza em contradição com o concreto. A forma é a curva, com que substituiu a tradição milenar de ângulos e retas.

“Não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta, dura, inflexível criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país. No curso sinuoso dos sentidos, nas nuvens do céu. No corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo”, explicou o mestre.

Ele retornou ao Brasil no início dos anos 80, período da anistia dos exilados no governo de João Figueiredo. Para consolidar os projetos do amigo Darcy Ribeiro, antropólogo e então vice-governador do Rio na época de Brizola, ele projetou os CIEPs (Centro Integrado de Educação Pública) e o Sambódromo do Rio.

A cidade de Niterói é a segunda do Brasil com o maior número de trabalhos do arquiteto, depois de Brasília. Após o consagrado Museu de Arte Contemporânea (MAC), foi projetado o Caminho Niemeyer, um complexo de edificações assinadas pelo mestre e voltado para a cultura e a religião. As obras foram distribuídas ao longo da orla da Baía de Guanabara, se iniciando pelo Centro da cidade. Entre as nove construções projetadas, está o Teatro Popular, inaugurado em 2007.

Centenário

No mesmo ano, o mestre da arquitetura completou 100 anos de vida. A comemoração contou com a presença de cerca de 600 amigos e familiares. No dia, Niemeyer citou mais de uma vez que a vida não é fácil e que, se tivesse que resumi-la numa palavra, escolheria a solidariedade: "Os pobres ficam vendo os palácios de hoje sem poder entrar”, disse. “A vida não é justa. E o que justifica esse nosso curto passeio é a solidariedade”.

Apesar de tanto sucesso - recebeu todos os prêmios imagináveis, incluindo o prestigioso Pritzker em 1988 e a Ordem do Mérito Cultural - Oscar Niemeyer era um homem modesto. Para os íntimos, ele confessou que não conseguia entender a razão de tanta reverência. “Trabalhei muito, fiz meu trabalho na prancheta, como um homem comum...”.


Maior artista do país, Niemeyer fez a arquitetura brasileira ser pop.

Oscar Niemeyer foi o maior artista brasileiro. Em um país onde até as elites moram em castelinhos "neocoloniais, pudins, marmeladas e xaropes, com sua ignorância beata e beócia", como Mário de Andrade já dizia nos anos 30, fica difícil medir a importância revolucionária desse arquiteto. Ele conseguiu fazer arquitetura de vanguarda mundial nos anos 40 e 50, quando o Brasil era um país agrícola e rural, ainda mais periférico do que hoje.

Mas façamos um teste. Qual o prédio mais impressionante e simbólico de São Paulo? O Copan. Que obra pública de São Paulo tem a maior força arquitetônica? Fica difícil escolher, mas certamente seria algo entre a marquise do Ibirapuera, a Oca ou a impressionante sede da Bienal.

O mesmo se aplica em Belo Horizonte, com a Pampulha ou o edifício Niemeyer, na praça da Liberdade, com o museu que projetou em Curitiba (cidade comandada por arquitetos por tantos anos, mas com uma arquitetura de segunda) ou com o estratégico museu em Niterói.

Mesmo no Rio, onde construiu pouco, o Ministério da Educação - Palácio Capanema e a Casa das Canoas são praticamente imbatíveis. Que não sejam construções tão conhecidas pelos não iniciados só reforça nossa ignorância arquitetônica.

Sem falar de Brasília. Do Itamaraty ao Alvorada, passando pelo Supremo, pelo Planalto ou pela rampa do Congresso (onde qualquer brasileiro fica sem respiração ao contemplar aquele céu e aquela vista), Niemeyer demonstrou um vasto repetório de formas e surpresas que pouquíssimos mestres podem exibir.


É sempre bom exemplificar. Lembrar como era penoso para Michelangelo limitar o diâmetro de suas cúpulas a 30 ou 40 metros. É lógico que ele teria gostado de poder fazê-las com 80 metros de diâmetro, como tive a oportunidade de realizar agora no museu de Brasília.

E recordo outro exemplo de como os arquitetos daqueles tempos ficavam a sonhar soluções arquitetônicas que só agora é possível concretizar. Lembro Calendario, o arquiteto que projetou o Palácio dos Doges, em Veneza, desejoso de nele criar um espaço mais amplo e obrigado a recorrer a uma enorme treliça de madeira. Problema esse que, hoje, uma simples laje de concreto resolveria.

Não acredito numa arquitetura ideal, por todos adotada. Seria a repetição, a monotonia. Cada arquiteto deveria ter a sua arquitetura, não criticar os colegas, fazer o que lhe agrada, e não aquilo que outros gostariam que ele fizesse. E, ainda, ter a coragem de procurar a solução diferente, mesmo quando sentisse que era radical demais para ser aceita.

Reconheço, sem falsa modéstia, que não me faltou coragem para desenhar as cúpulas do Congresso Nacional, que espantaram até Le Corbusier, a nos afirmar: "Aqui há invenção". E, pelos mesmos motivos, agrada-me lembrar a praça do Havre, que projetei na França, eu a dizer ao seu prefeito diante do terreno escolhido: "Gostaria de rebaixar o piso desta praça quatro metros". Recordo que ele me olhou surpreso, mas eu falava com tanta convicção que a praça foi rebaixada como pedi.

É claro que eu tinha razão. Minha ideia era protegê-la dos ventos e do frio que vinham do mar.

Hoje, das calçadas que a contornam, o povo, de cima, a vê e, espantado, desce pelas rampas para apreciá-la melhor. Eu, pelo menos, não conheço nenhuma praça como aquela, agora tombada e escolhida um dia pelo crítico italiano Bruno Zevi como uma das dez melhores obras da arquitetura contemporânea.

Confesso que vacilei em falar desse trabalho meu com tanto entusiasmo. É um exemplo de determinação profissional que cabia aqui mencionar.

Se examinarmos a questão da intervenção da técnica na arquitetura, basta lembrarmos o seguinte: antigamente, as paredes é que sustentavam os prédios; com o aparecimento da estrutura independente, elas passaram a simples material de vedação.

Oscar Niemeyer


Um dia, Darcy Ribeiro me contou uma história engraçada. Tinha organizado uma mesa-redonda para debater os problemas dos índios brasileiros. Entre os convidados, havia um índio seu conhecido, e, durante uma hora, as questões foram discutidas sem que ele dissesse uma única palavra.

Surpreso, Darcy o interrogou: "Você não que falar?". "Não", foi a resposta. O nosso antropólogo insistiu: "Por quê?". "Estou com preguiça", respondeu o rapaz.

Todos riram, e eu fiquei a matutar: será que o índio não acreditava mais em certo tipo de promessa, naquelas boas intenções a que os nossos irmãos mais pobres já estão tão habituados?

Confesso que, tal qual o índio, tenho preguiça de participar de congressos, simpósios que surgem sobre arquitetura, de escutar as opiniões mais ridículas, os pontos de vista já superados, que, neles, impacientes, somos obrigados a ouvir.

Certa vez, Alvar Aalto, cansado de tais conversas, declarou que não existe arquitetura antiga e moderna. O que existe, no seu modo de ver, é boa e má arquitetura.

É evidente que Alvar Aalto tinha razão. Mas como eram limitadas, nos velhos tempos, as possibilidades de se caminhar na arquitetura!

Oscar Niemeyer


Lucas de Oliveira descansava na varanda da sua casa, debruçada na calçada de uma praça de São Pedro da Aldeia. Praça grande, arborizada, ladeada por quatro ruas e uma arquitetura de casas térreas, modestas, como todo o bairro.

Num dos cantos da praça, uma ladeira estreita e íngreme levava até a lagoa. Lagoa de águas tranquilas, com suas salinas brancas a marcarem a linha do horizonte.

Era pequena a casa de Lucas, e sua única empregada, Lúcia, tão dedicada a ele que permitia aos mais maliciosos especular sobre suas verdadeiras funções naquela residência.

Antigo militante comunista, conhecido pela imprensa e admirado por seus camaradas, habituados a vê-lo se apresentar, audacioso, para as tarefas mais difíceis, Lucas, após tantos anos de luta política, ali se recolhera para a vida mais tranquila que tanto merecia.

É claro que continuava ativo, presente a todos os protestos e a tudo que visava defender o povo brasileiro e sua soberania. Era culto, andava sempre com um livro debaixo do braço. E até a imprensa, a mais reacionária, referia-se a ele com respeito e uma admiração mal disfarçada.

Os amigos continuavam a procurá-lo, e era difícil para ele fugir às entrevistas e encontros que lhe solicitavam. Talvez o que ocorria na antiga União Soviética explicasse, em parte, aquela atitude tão estranha para um homem de temperamento expansivo e combativo como ele.

Mas era ali, naquela varanda, que o nosso amigo ficava a conversar com os que o procuravam, interessados no que acontecia no Brasil e no mundo.

A carta era da sua irmã que morava em Ouro Preto. Aflita, indagava quando ele apareceria por lá; a casa estava coberta de goteiras e ela temia que seus livros espalhados nas estantes pelos corredores ficassem estragados. E pelo tom, sempre alegre, Lucas sentiu que alguma coisa preocupava Conceição.

Como gostava daquela irmã, já viúva, sozinha naquela casa! É claro que as amigas a procuravam, que todos a estimavam, que a empregada antiga era como gente da família.
Era católica, com retrato do papa na parede, mas para ele todas as concessões faria. Até os comunistas aceitava. Gente boa, que um dia iria compreender melhor.

Em tudo isso Lucas pensava, naquela noite, com carinho. E recordava como de sua parte respeitava o caráter religioso de Conceição. Compreendia que, se fosse como ela, o lado finito da vida estava resolvido, e ele, tranquilo, pronto para ir para o céu.

Oscar Niemeyer


Frases de Oscar Niemeyer

"Toda escola superior deveria oferecer aulas de filosofia e história. Assim fugiríamos da figura do especialista e ganharíamos profissionais capacitados a conversar sobre a vida".

"O que me atrai é a curva
livre e sensual. A curva
que no encontro sinuoso
dos nossos rios, nas nuvens
do céu, no corpo da mulher
preferida. De curva é feito
todo o universo. O universo
curvo de Einstein".

"A vida é um sopro".

"Existem apenas dois segredos para manter a lucidez na minha idade: o primeiro é manter a memória em dia. O segundo eu não me lembro".

"Amo a vida e a vida me ama. Somos um casalzinho insuportável".

"Quando se vê um arvorado o importante nao são as árvores mais os espaços entre ela".

"Se a reta é o caminho mais curto entre dois pontos, a curva é o que faz o concreto buscar o infinito".



Veja o aqui o mapa das principais obras de Oscar Niemeyer
Clique no mapa para ampliar

Veja também - Galeria de fotos - Clique aqui


Gostou desta página ? Compartilhe em suas redes sociais.

   


Indique esta página a um(a) amigo(a) :

Seu n
ome:   Seu e-mail:    Enviar para o e-mail:  

 


Envie os comentários



 

Indique um lugar e concorra a prêmios, promoções e descontos exclusivos
Fale conosco
Anuncie para Brasília / DF - Brasil
Som da página